Momento difícil esse quando voce percebe que para alguem que era tudo para voce, voce simplesmente é nada. Acho que a única forma de superar isso é simplesmente continuar vivendo e aprender que talvez a vida seja assim mesmo, cheia de enganos e decepçoes.
Acho que a liçao que aprendo com isso tudo é que a única pessoa que nos dará o valor que realmente merecemos somos nós mesmos.
Esse meu espaço é na verdade um lugar onde posso postar meu textos e pensamentos. O blog possui esse título porque acredito que o ponto final limita as palavras e sentimentos são muito maiores do que as palavras podem descrever, por isso às vezes não uso ponto final para que os sentimentos não se sintam acorrentados às limitações da gramática.
domingo, 25 de março de 2012
sábado, 24 de março de 2012
Os entendedores de deus
Trabalhar embarcado é uma experiencia de fato estressante certas vezes, pois passar 14 e algumas vezes até mesmo 21 dias embarcado nao é algo muito simples de se fazer, contudo, a convivencia com pessoas de diversas origens e crenças sao uma fonte inesgotável de reflexoes e pensamentos.
Certo dia durante um jantar ouvi um frequentador de uma igreja dizer que no dia em que fez uma brincadeira sobre uma igreja sua vida virou de pernas para o ar, desde entao ele parou de fazer tal coisa. Em outro momento ainda no mesmo dia, um pastor veio me dizer como era engraçado o fato de os Beatles terem dito que do jeito que o mundo estava eles acabariam sendo mais famosos que Jesus Cristo e depois de Guga ter dito que devia suas vitórias as bananas que comia sua carreira ter acabado devido aos problemas em seu quadril. Analizando essas duas frases elas me levam a dois tipos de pensamentos sobre esse deus que eles acreditam e pregam.
Número 1: O deus que eles creem e pregam é um deus egoísta e revanchista, que quando ve algum humano agradecer a qualquer outra coisa que nao seja ele, se vinga e destroi a vida dessa pessoa. Um deus que gosta de ser aclamado todo o tempo e gosta de ser o centro das atençoes.
Se isto for verdade, isso explicaria a natureza cheia de defeitos de nós humanos, pois jamais poderíamos ser bons quando nosso criador é tao ruim quanto nós.
Número 2: O deus que eles creem é na verdade tao parecido como nós humanos porque é na verdade uma ivencao da própria humanidade. Deus, nao passaria entao de uma criaçao como a Branca de Neve ou Os tres porquinhos.
Isso é algo que Nietzsche já havia percebido anos atrás quando se endagou "Seria o homem uma mera criaçao de deus ou deus uma mera criaçao do homem?"
A primeira hipótese dessa linha de pensamento é bastante assustadora, por isso temo com todo meu coraçao que ela seja verdade e espero que de fato nao seja, pois simplesmente nao me é possível acreditar que o todo poderoso seja tao humano e cheio de defeitos como voce e eu.
Já a segunda hipótese é, para mim, até bastante crível, visto todas as atrocidades que a raça humana é capaz de fazer.
Frente a esse panorama sinistro sobre o que seria deus, eu prefiro, na verdade eu escolho, acreditar numa terceira hipótese.
Número 3: Deus é o criador e da mesma forma que um filho carrega os genes de seus pais, todos nós carregamos Deus dentro de nós. Eles está e sempre esteve conosco, mas por vezes chamamos Ele por outros nomes, como "a voz que vem de dentro, esperança, força interior", penso que na verdade isso tudo seja o verdadeiro Deus. Esse Deus que acredito nao vai me punir se eu nao disser o nome dEle, tampouco se irritar se eu atribuir meu sucesso a meu próprio esforço ou inteligencia, visto que essas sao características dEle próprio que estao dentro de mim.
Esta é a hipótese que acho mais plausível e real, pois esta sim se encaixa na imagem de um deus benevolente e misericordioso que acredito.
Que Deus abençoe e todos!
Certo dia durante um jantar ouvi um frequentador de uma igreja dizer que no dia em que fez uma brincadeira sobre uma igreja sua vida virou de pernas para o ar, desde entao ele parou de fazer tal coisa. Em outro momento ainda no mesmo dia, um pastor veio me dizer como era engraçado o fato de os Beatles terem dito que do jeito que o mundo estava eles acabariam sendo mais famosos que Jesus Cristo e depois de Guga ter dito que devia suas vitórias as bananas que comia sua carreira ter acabado devido aos problemas em seu quadril. Analizando essas duas frases elas me levam a dois tipos de pensamentos sobre esse deus que eles acreditam e pregam.
Número 1: O deus que eles creem e pregam é um deus egoísta e revanchista, que quando ve algum humano agradecer a qualquer outra coisa que nao seja ele, se vinga e destroi a vida dessa pessoa. Um deus que gosta de ser aclamado todo o tempo e gosta de ser o centro das atençoes.
Se isto for verdade, isso explicaria a natureza cheia de defeitos de nós humanos, pois jamais poderíamos ser bons quando nosso criador é tao ruim quanto nós.
Número 2: O deus que eles creem é na verdade tao parecido como nós humanos porque é na verdade uma ivencao da própria humanidade. Deus, nao passaria entao de uma criaçao como a Branca de Neve ou Os tres porquinhos.
Isso é algo que Nietzsche já havia percebido anos atrás quando se endagou "Seria o homem uma mera criaçao de deus ou deus uma mera criaçao do homem?"
A primeira hipótese dessa linha de pensamento é bastante assustadora, por isso temo com todo meu coraçao que ela seja verdade e espero que de fato nao seja, pois simplesmente nao me é possível acreditar que o todo poderoso seja tao humano e cheio de defeitos como voce e eu.
Já a segunda hipótese é, para mim, até bastante crível, visto todas as atrocidades que a raça humana é capaz de fazer.
Frente a esse panorama sinistro sobre o que seria deus, eu prefiro, na verdade eu escolho, acreditar numa terceira hipótese.
Número 3: Deus é o criador e da mesma forma que um filho carrega os genes de seus pais, todos nós carregamos Deus dentro de nós. Eles está e sempre esteve conosco, mas por vezes chamamos Ele por outros nomes, como "a voz que vem de dentro, esperança, força interior", penso que na verdade isso tudo seja o verdadeiro Deus. Esse Deus que acredito nao vai me punir se eu nao disser o nome dEle, tampouco se irritar se eu atribuir meu sucesso a meu próprio esforço ou inteligencia, visto que essas sao características dEle próprio que estao dentro de mim.
Esta é a hipótese que acho mais plausível e real, pois esta sim se encaixa na imagem de um deus benevolente e misericordioso que acredito.
Que Deus abençoe e todos!
terça-feira, 6 de março de 2012
Um comentário que virou postagem
"O amor quando é engano fere mais que qualquer outro sentimento que podia ter sido".
P.S. Este deveria ter sido um comentário no blog Pão doce com queijo, de Nataly Serejo, mas como não consegui colocar lá postei aqui mesmo.
Parabéns Nataly pelo blog!
P.S. Este deveria ter sido um comentário no blog Pão doce com queijo, de Nataly Serejo, mas como não consegui colocar lá postei aqui mesmo.
Parabéns Nataly pelo blog!
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Santidade
Nao sou nem quero ser santo, posto que a santidade nao é inerente ao homem e eu nao posso aceitar ser condenado simplesmente por ser aquilo que verdadeiramente sou, humano.
Quero apenas ser bom, pois isso sei que posso ser.
Todo o resto que tentarem me impor será nada além de mais uma forma de me escravizarem.
Quero apenas ser bom, pois isso sei que posso ser.
Todo o resto que tentarem me impor será nada além de mais uma forma de me escravizarem.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Ilha Estrela
Quatorze luas passaram e após experimentar diversos sentimentos volto mais uma vez para o dorso de Pégasos, que voa entre céus de nuvens e estrelas me levando de volta para Ilha Estrela, a ilha da ambiguidade.
Deixo meu outro eu no lugar de onde parti para viver a experiencia de me redescobrir.
Subo no plato oeste da ilha e ao mirar para além dos Pilares de Hércules sinto Éolo tocar minha pele.
Ainda ao longe, vejo Hermes voando como se fizesse ele mesmo parte do céu de Urano, trazendo consigo a mensagem da esperança.
Agora sinto-me um pouco mais forte, um pouco mais energia, um pouco mais Eros e um pouco menos homem.
É a força da Ilha Estrela, que me faz esquecer de minha pele e me faz lembrar de minh'alma.
Deixo meu outro eu no lugar de onde parti para viver a experiencia de me redescobrir.
Subo no plato oeste da ilha e ao mirar para além dos Pilares de Hércules sinto Éolo tocar minha pele.
Ainda ao longe, vejo Hermes voando como se fizesse ele mesmo parte do céu de Urano, trazendo consigo a mensagem da esperança.
Agora sinto-me um pouco mais forte, um pouco mais energia, um pouco mais Eros e um pouco menos homem.
É a força da Ilha Estrela, que me faz esquecer de minha pele e me faz lembrar de minh'alma.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Espécie humana
Outro dia, quando estava eu a assistir uma reportagem no National Geographic sobre nossos amigos símios, descobri algo muito interessante. Eles mostraram que chimpanzés de uma certa localidade eram capazes de usar pedras para abrir seus cocos, mas não era simplesmente bater a pedra contra o coco, a técnica que eles usavam era ainda mais refinada. Eles usavam uma pedra como martelo e outra como uma "mesa", esta possuía um entalhe no meio para ali eles colocarem o coco, assim quando este fosse golpeado pelo "martelo" não sairia voando para todo lado e dessa forma também o macaco poderia mensurar melhor a força de seu golpe. Ainda em outro momento da alimentação dos primatas, uma matriarca que não possuía um martelo chegou perto de um grande chimpanzé, estendeu sua mão e este por sua vez a emprestou sua própria pedra. Assistindo tudo aquilo confesso que fiquei maravilhado com aqueles atos.
Pouco tempo depois, fui assistir RJ TV e vi a notícia sobre alguns rapazes que espancaram um mendigo na Ilha do Governador pelo simples fato dele ser mendigo, isto me lembrou o mendigo que fora queimado vivo em Brasília anos atrás e todos os nossos políticos, um bando de egoístas que fecham os olhos para as necessidades da população e só querem enriquecer por meios à margem da lei. Vendo estes dois fatos eu gostaria muito que Darwin estivesse vivo para que eu pudesse perguntá-lo:
-Meu caro amigo, tem certeza que somos nós a espécie evoluída?
domingo, 5 de fevereiro de 2012
A visita de Caronte
Dia 2 de fevereiro
Nunca vou me esquecer daquele dia 2 de fevereiro de 2012, meu dia havia sido um dia daqueles! Fui acordado pelo telefonema de minha namorada que dizia precisar de mim, queria conversar sobre algo que a estava incomodando. Eram 10:42 da manhã quando o celular tocou e lembro-me que naquele exato momento estava pensando que se eu levantasse em no máximo mais 5 minutos poderia ir buscá-la em seu estágio, mas parece que ela leu minha mente e antecipou as coisas saindo de lá mais cedo e me ligando para encontrar comigo. Assim que acabamos de nos falar escovei os dentes, peguei uma camisa sem manga e depois de dar alguns cinco minutos de atenção para minha mãe e irmão, algo que não fazia já há poucos dias, saí ao encontro dela. Era um encontro bastante ansiado por mim, uma vez que quando se trabalha embarcado cada dia em terra deve ser muito bem valorizado. Infelizmente, porém, o encontro foi catastrófico e mais uma vez nós brigamos. Nossa, como aquelas brigas me incomodavam. Eram brigas por motivos e razões simples, mas que na mente dela faziam todo sentido. Jamais consegui compreende-la e aquilo acabava comigo por dentro ao ponto de isso somado a mais todos os outros problemas ter me feito pensar por várias vezes que a única solução, e também a melhor, seria o descanso final, pois só ele traria a paz que tanto buscava. Eu não gostava do meu emprego, não gostava da saudade que ele me causava, não tinha paz ao ver meu cheque especial ser usado mês após mês, não tinha paz por não mais conseguir pagar nada a mais do mínimo do meu cartão de crédito, isso quando eu conseguia pagar. Em resumo, minha vida era uma tragédia e a única pessoa capaz de me fazer feliz parecia não pensar duas vezes antes de me fazer sofrer. Naquela época, a única coisa que eu queria era poder ter a liberdade para ser eu mesmo sem ser crucificado por isso.
Depois daquele dia trágico, quando a noite chegou escrevi um pouco e lá pelas duas da manhã, após minha mente já ter me matado e ressuscitado umas trezentas vezes, sentia que pelo menos no meu colchão teria um pouco de paz, mesmo que temporária. O que eu não imaginava é que aquela não seria uma noite comum.
A visita
Após tomar um banho e escovar os dentes, fui então para minha cama. A noite estava quente, pois o verão era impiedoso no Rio de Janeiro, mas um ar-condicionado ligado deixava a temperatura mais amena e tornava aquela noite um pouco menos dura do que fora o dia.
Tudo estava indo bem e meu sono era bem tranqüilo, até que em algum momento que a surpresa do fato me impede lembrar, fui acordado por uma figura estranha. Vi um rosto velho, mais velho do que qualquer outro homem que já havia cruzado meu caminho, ele trajava vestes surradas e escuras e sua áurea era carregada. Tinha um cheiro estranho que não consigo até hoje reconhecer e estava envolto em uma névoa negra e assustadora. Tomado pelo medo confesso que tentei gritar, mas aquela figura estranha colocou sua mão em minha boca não deixando que ar nenhum entrasse ou saísse dela, sua mão igualmente enrugada e gélida ao tocar meus lábios me assustou ainda mais, porém, naquele segundo reconheci aquela figura. Era ele, era Caronte, o barqueiro que leva as almas dos mortos até o Hades atravessando-as pelo rio Aqueronte. Naquele mesmo momento o medo simplesmente me deixou e penso que o barqueiro sentiu isso, pois tirou sua mão coberta de anéis de ouro de minha boca e começou a me olhar profundamente. Caronte então afastou-se um pouco de mim ainda envolto naquela nuvem negra e me disse.
- Você sabe quem sou, por isso te pouparei de explicações a respeito de minha identidade e irei direto ao assunto. O que venho fazer aqui está noite é te mostrar um lugar no qual você jamais esteve e que tenho certeza jamais irá querer voltar.
Após proferir aquelas palavras que me fizeram sentir cada pelo de meu corpo se erguer e aquele frio assustador na espinha, Caronte pegou minha mão com a dele e arrancou minha alma de dentro de meu corpo. Essa sensação de sentir sua alma deixar seu corpo é algo simplesmente inexplicável, mas se pudesse colocar isso em palavras diria que senti um calor na parte de minha pele por onde meu espírito a rompia ao mesmo tempo que pouco a pouco me sentia cada vez mais leve ao ponto de flutuar. Enquanto Caronte me erguia no ar eu via meu corpo deitado naquela cama, via meu peito enchendo e se esvaziando a cada vez que respirava e pela primeira vez tive a noção real de como eu fisicamente era. Após deixar meu corpo já não mais sentia necessidade de respirar, não sentia calor, não sentia frio, era como se eu fosse o próprio ar, leve e capaz de ir a qualquer lugar que eu quisesse.
A primeira parada
Caronte me levou para fora de meu quarto e foi estranho sair de lá sem usar a porta, na minha nova realidade de “alma penada” eu teria que me acostumar e passar pelos lugares como se eles nem mesmo existissem, visto que não sabia por quanto tempo estaria à mercê do barqueiro.
Conforme nos elevávamos no céu eu via minha casa ficando cada vez mais longe, via as luzes de Mesquita lá do alto e quando passamos por dentro da primeira nuvem algo estranho aconteceu. Embora eu não sentisse mais nada na minha condição de alma, nem mesmo meu próprio peso, ao entrar naquela nuvem minha cabeça estranhamente pesou e minha vista foi tomada por um grande embaço de cor negra, logo após isso adormeci.
Lembro-me de ao acordar ver a face de Caronte olhando mais uma vez profundamente em meus olhos, ao perceber que eu já estava mais uma vez acordado ele me disse:
- Levanta rapaz e veja o lugar que te trouxe, é tudo que acontece aqui que quero te mostrar.
Ao olhar para aquele lugar fui tomado mais uma vez por um enorme frio na espinha e meus pelos mais uma vez se arrepiaram. O lugar era de um negro que jamais havia visto, parecia um jardim, porém tudo que ali já devia ter tido vida agora estava morto. Uma névoa fina tomava conta daquele lugar e havia muitas almas ali perdidas perambulando sem direção alguma, aquele lugar e aquele sentimento eram com certeza os mais tristes que já havia visto e sentido. Meu peito foi tomado por uma profunda tristeza e um vazio imensurável, aquele lugar era com certeza vazio de qualquer forma de amor ou qualquer outro sentimento bom.
Peguntei para Caronte que lugar era aquele e ele me respondeu.
- Este é o Campo e nem todas essas almas que você vê aqui, ao contrário do que você deve estar pensando agora, são almas de pessoas mortas, algumas estão vivas. É aqui que almas que perderam algum sentimento em suas vidas vem durante as noites, porém elas jamais sabem que estiveram aqui.
Ao ouvir aquilo eu perguntei para o barqueiro.
- Eu também já estive aqui?
-Vamos andar um pouco por esse lugar e em breve você terá suas respostas. Respondeu Caronte.
Começamos então a andar e cada vez que chegava perto de alguma alma me sentia ainda mais triste. Eu via pessoas jovens, idosas, mulheres, homens e quanto mais velhos eles eram mais tristeza eu podia sentir e também ver em seus olhos. Algo ainda mais estranho me chamava atenção quando via essas almas. Todas elas estavam com suas cabeças completamente viradas para trás, aquela era uma cena aterradora. Mais uma vez perguntei para Caronte o porquê daquilo e mais uma vez ele me respondeu.
-Essas são as almas dos lamuriantes, suas cabeças estão sempre viradas para trás porque são incapazes de olhar para o futuro. Tudo o que fazem é olhar para o passado, para os erros que cometeram e culpar a vida pelo seu presente. Essas almas são incapazes de chegar a lugar algum, pois suas vidas são baseadas em desculpas para tudo e estas os impedem de seguir em frente. Perderam a força de viver e são apenas como cadáveres que ainda respiram. Agora continue seguindo-me, quero te levar a mais um lugar.
Caronte continuou a andar e eu por minha vez fui o seguindo por entre os becos e resquícios do que antes deveriam ter sido arbustos ou árvores. Andamos por um tempo não muito longo, mas também não muito curto, até que chegamos em um banco onde eu podia ver um jovem sentado de costas para mim, porém sua cabeça voltada para suas costas estava de frente para a minha. Chegamos mais perto dele, pois ele tinha um “ar” bastante pesado e Caronte parecia muito interessado em que eu conhecesse aquele rapaz, ao chegar mais perto, fui tomado pela pior sensação de espanto e medo que já senti em minha vida. Quase não pude acreditar quando cheguei mais perto e reconheci aquela face, aquele olhar, aquele choro, aquele rapaz triste de cabeça baixa era eu!
Aquela era a segunda vez que podia me ver por tal perspectiva, mas diferente de quando me vi na cama dormindo, desta vez a imagem que via de mim mesmo era nada além de simplesmente deprimente.
Perguntei para Caronte como eu poderia estar ali se estava com ele mesmo naquele lugar e ele então me respondeu.
-Esta aqui é a sua alma, meu jovem. Assim como todas as outras que você aqui pode ver, a sua também é freqüentadora diária do Campo. Você me pergunta como pode estar comigo e também ali, te respondo que é porque esta que você vê agora é a noite de ontem, voltamos um pouco no tempo para que você pudesse ver a si mesmo.
Poder ver a mim mesmo em estado tão deplorável era uma cena muito perturbadora, nem mesmo em meus devaneios quando me imaginava vendo meu retrato ao estilo Dorian Gray podia imaginar um ser tão miserável, na verdade quando me olhava tudo que sentia era uma profunda e imensurável pena de mim mesmo. Naquele mesmo momento pela primeira vez pensei em olhar meu “corpo” e ao baixar minha cabeça constatei mais uma verdade assustadora! De fato, ao olhar para baixo tudo que via eram minhas próprias costas, minhas nádegas e meus calcanhares, minha cabeça estava de fato virada para trás e eu simplesmente não havia percebido aquilo. Tentei a virar para posição normal, mas meu esforço foi em vão, era como se meus “músculos” não mais respondessem, ou tivessem simplesmente sido retirados de mim, o fato é que minha cabeça só podia olhar para trás. Embora este fato tivesse me deixado petrificado, tentei buscar em algum lugar de minha alma um resto de racionalidade para que pudesse voltar a olhar o meu outro eu sentado no banco, pois julgava que se o objetivo de Caronte havia sido me levar até aquele lugar para ver aquela cena em particular, então não caberia a mim desperdiçar aquela visita do barqueiro, por mais extraordinário que qualquer outro fato pudesse ser.
Com mais cuidado comecei a reparar em mim mesmo sentado ali naquele banco e como num passe de mágica a espessa névoa que cobria meu ser se dissipou. Como se já não fossem bastantes as experiências aterradoras que aquela noite havia me revelado, tive mais uma visão daquela digna dos mais assustadores filmes de terror. Confesso que se estivesse em corpo presente naquele lugar teria morrido de um ataque cardíaco ao ver o que vi, pois nada na vida havia me preparado ou sequer chegado perto daquela cena.
Ao desaparecer da névoa pude ver claramente que os braços de minha alma seguravam um pontiagudo e grande punhal e este estava enfiado até o fundo contra meu peito, via uma energia, uma luz esverdeada que se comportava quase como um gás vazando de dentro de minha alma, naquele momento senti toda minha energia ser drenada e embora minha condição de alma me impedisse de chorar com lágrimas, chorei em sentimento e me senti como se caísse de joelhos sobre o chão daquele lugar. Assim que toquei o solo e antes que pudesse pensar em qualquer pergunta, Caronte me ergueu de forma bruta, segurando-me pelo queixo e me fez olhar para aquela cena horrível mais uma vez. Enquanto ele certificava-se de que eu estava vendo tudo aquilo acontecer na minha frente comigo mesmo, ele me disse.
- Olhe rapaz, olhe e se lembre disso, pois uma visita dessas não acontece com todos, na verdade, posso contar em dedos de uma só mão quantos já estiveram aqui da forma que você está agora. Agradeça a Posídon, pois foi ele que vendo teu sofrimento no mar se compadeceu de sua dor e pediu para que Zeus deixasse eu trazê-lo aqui. Este é com certeza o pior lugar em que já estivera e tenho certeza que depois de ver o que vistes, jamais irá querer estar aqui novamente.
Em prantos, ouvia cada palavra que o barqueiro me dizia e enquanto eu tentava sobreviver a tamanha dor Caronte prosseguiu.
-Sua alma não é única aqui que tem em suas mãos o punhal do medo, todas as que vistes esta noite assim também o tinham, porém a névoa negra que as cobre o impediu de vê-las. Como disse, esse punhal é o medo e ele vive dentro de cada uma dessas almas que aqui estão e ele é o responsável por toda sua dor, pela sua solidão, pelo seu fracasso. Todos aqui culpam as adversidades, a vida, o mundo, viram suas cabeças para o passado a passam todo o seu tempo se lamentando sem jamais perceber que toda reação que acontece na vida deles é fruto de suas atitudes no passado. No caso das almas que aqui habitam, o medo as domina, as tira a energia um pouco mais a cada dia e os impede de seguir, pois enquanto eles não tiverem a força para eles próprios retirem os punhais de seus corações continuarão sendo escravos de si mesmos, assim como você é agora. Quando você tentou virar sua cabeça para frente não conseguiu fazer isso foi porque você ainda tem o medo em você, você só conseguirá enxergar o futuro quando for capaz de aceitar o seu presente.
Ouvi todas as palavras de Caronte em choque, não conseguia fazer nada além de chorar naquele momento, não conseguia sentir nada mais além do meu próprio desespero. De repente uma grande luz azulada se abriu no céu e o Campo antes escuro e tenebroso se iluminou, todas as figuras que ali estavam simplesmente sumiram a passamos a flutuar em um imenso vazio muito claro. Apesar da luz que tomava conta daquele lugar, ainda me era possível ver a luz azulada no alto, Caronte então mais uma vez me pegou pela mão e disse que me levaria para um outro lugar.
A segunda parada
Seguimos então em direção àquela luz azulada e começamos a passar por dentro de uma espiral de luz, uma mistura de azul com uma luz branca muito clara. Enquanto passávamos por aquela espiral eu tentava me enxergar, porém naquele momento acho que havia me tornado mais uma vez apenas algo como o próprio ar, assim como no momento em que deixei minha cama e fui em direção ao Campo com Caronte.
Depois então, chegamos a um lugar onde não havia chão, nem paredes, nada, era um lugar muito iluminado e nossos espíritos simplesmente flutuavam ali. Sobre nós, quase como se fosse no próprio céu, eu podia ver cenas da minha infância. Dessa vez, diferente daquele lugar horrível por onde havia passado, havia muita luz e eu me via ainda muito jovem e feliz correndo para todos os lados com meu primo e meu irmão, podia me ver jogando bola com chinelos Havaianas e todos nós parecíamos muito felizes. Pouco tempo depois, avançamos um pouco nos anos e me vi agora um adolescente, porém algo já havia mudado em minha fisionomia. Caronte me mostrou saindo de meu estágio, eu estava vestido com uma camisa pólo vermelha e jeans azuis, o dia estava ensolarado e Jonas, meu supervisor, estava comigo, assim como Luciana, a outra estagiária. Eles me diziam que eu devia sair um pouco mais, aproveitar mais minha adolescência, mas eu dizia que era feliz do jeito que era. Lembro-me que sempre fui do tipo que toma bastante cuidado com o corpo, não quero dizer que malho todo dia, na verdade sou bem magro, mas sempre procurei evitar acidentes, mesmo assim, via alguns arranhões em minha pele e podia me lembrar com toda certeza que nada havia acontecido naquela época que justificasse aqueles arranhões. Como tudo naquele passeio com Caronte era novo e tinha uma explicação que eu jamais poderia imaginar sozinho, perguntei para ele, então, porque eu via aqueles arranhões em meu corpo. O barqueiro então começou a me explicar.
-Na sua infância seu espírito era livre e o medo ainda não fazia parte da sua vida, contudo, na sua adolescência sua pele está marcada porque foi nessa fase da sua vida que você começou a se sabotar. Antes de chegar ao seu coração, o punhal que você se viu segurando momentos atrás passeou pela sua pele e cada corte drenava um pouco de sua energia. O primeiro momento em que você sentiu medo e se cortou levou a todos os outros cortes que você vê na sua pele quando adolescente, pois você nunca foi capaz de vencer esse seu medo inicial e deixou que ele dominasse sua vida. O medo é natural a todos nós, pois este é um dos sentimentos que foi liberado por Pandora quando ela abriu o vasilhame tempos atrás, porém, assim como o medo, existem diversos outros sentimentos que compõe a alma humana. O que você precisa lembrar é que o medo é apenas parte de você, mas não define o que você é.
Depois de ouvir aquilo tudo Caronte continuou.
-Minha visita a você termina aqui, agora te levarei de volta para onde te busquei.
Antes que ele tomasse minha mão mais uma vez, perguntei.
-Ainda posso me libertar do Campo?
Ele então respondeu.
-Apenas olhe para frente e você nunca mais frequentará o Campo de novo, não se esqueça disso.
A volta para casa
Caronte então pegou minha mão e senti uma sensação como se estivesse caindo. Diferente da primeira vez, quando ele foi me buscar em meu quarto, agora eu não podia identificar nada, não via mais nuvens, nem luzes na cidade, nada, só podia ver um grande borrão que nos cercava. Após o que pareceu ser apenas um segundo me vi em meu quarto mais uma vez, estava agora acordado exatamente na mesma posição em que estava dormindo quando o barqueiro me acordou, não sentia medo, nem angústia, nada, estava apenas um pouco confuso, pois não sabia se aquilo havia sido um sonho ou realidade. De qualquer forma, pensei que não mais deixaria o medo me dominar, pois aquela experiência havia sido intensa demais para eu arriscar me ver de novo no Campo da forma que me vi. Fui então ao banheiro lavar o rosto e quando caminhava de volta para cama senti que algo pesava no bolso do meu short de dormir, coloquei a mão para ver o que era imaginando serem as chaves do carro ou qualquer outra coisa, mas ao ver o que ali estava tive a constatação de aquela experiência que havia vivido minutos atrás não havia sido um sonho. Descobri um pedaço de papel que enrolava algo, desembrulhei-o e dentro do papel havia uma bela moeda de ouro, fiquei impressionado com a beleza e o brilho dela, mas também me impressionei com o próprio papel, pois nele estava escrito: “Não se esqueça dela em sua próxima visita.”
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