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quarta-feira, 16 de março de 2011

Prazo de validade

Certo dia em uma conversa familiar minha mãe me disse que tempos atrás os produtos não possuíam prazo de validade estampado na embalagem, a única forma de saber se algo ainda estava em condições próprias para o consumo era vendo se a embalagem estava estufada ou pelo cheiro. O tempo foi passando, o mundo evolui e alguém sensato percebeu que seria muito útil para os consumidores saberem até que data algo poderia ser consumido e hoje podemos ver que todas as embalagens trazem essa informação.
Hoje em dia no mundo em que vivemos existe uma grande “coisificação” de pessoas e sentimentos e o prazo de validade estendeu-se também a elas e eles. Hoje parte dos relacionamentos tem um prazo de validade estampado já no ato do seu início, visto que pessoas se envolvem com outras por vários fatores, mas poucas vezes por amor. Pode ser porque são atraentes, porque tem dinheiro, porque precisam de sexo, para curar a solidão, porque querem acreditar que dará certo; é assim que muitos relacionamentos começam. É verdade que essa coisa de amor a primeira vista pode até existir, mas de forma geral no início de uma relação o que chama atenção no outro pode ser alguma outra coisa, mas não é amor de cara. Contudo, o problema é quando mesmo depois de certo tempo de envolvimento o casal não se envolve de forma completa porque sabe que aquilo é apenas uma curtição de momento, ou então um relacionamento que irá durar apenas até a chegada do carnaval, porque no carnaval é preciso estar solteiro para aproveitar a pegação.
Nos tempos de hoje os efeitos são especiais, os tweets e posts no Facebook são superficiais, os personagens dos desenhos no cinema são digitais e por fim o “amor” deixou de ser um sentimento e virou apenas uma palavra tão superficial quanto sua definição.
Nos anos dois mil amar não é preciso, pois amar é entregar sua vida à outra pessoa e nos tempos de hoje não podemos confiar nem em nossas próprias sombras. É preciso antes de tudo que nos formemos, que façamos nossas pós-graduações, que tenhamos ótimos empregos, que compremos nossos carros, que tenhamos nossas casas, que façamos nossas viagens, ou seja, que vivamos os melhores dias de nossas vidas da forma mais intensa possível só para nós mesmos e aí sim quando já estivermos cansados de tanta badalação poderemos entregar o resto de nossos dias para alguém. E esse alguém não precisa ser alguém especial, basta ser uma pessoa para preencher o vazio que a solidão eventualmente trará. Amor? Para que amor? Só é preciso sexo e uma pessoa para fazer companhia, sem apego emocional ou entrega em demasia, já que romantismo demais enjoa.
Os verbos hoje se conjugam na primeira pessoa do singular, EU sempre será muito mais importante do que VOCÊ! E que tal nosso, nossa, nossos, nossas? Ledo engano achar que ainda haja espaço para tais pronomes em uma frase, eles simplesmente tiveram seu lugar roubados pelo minha, meu, sua, seu.
É a grande evolução das espécies, como foi estudada pelo grandíssimo Charles Darwin. Somente os animais mais adaptados ao seu meio sobrevivem, e assim nós seres-humanos tivemos que nos adaptar e muito mais que praticar de fato viver o egoísmo e o egocentrismo para sobrevivermos nesse mundo.
Para aqueles que não se adaptarem não lhes caberá a morte física, entretanto poderão enfrentar a morte de seus espíritos ao passo que o mundo lá fora muda e se não mudarmos também somos antiquados, somos esquecidos. Pobre é o amor, que por viver na união entre duas pessoas não encontra mais nesse mundo individualista espaço para se fazer existir. Seu prazo de validade? Não há. Não porque durará para sempre, mas talvez por jamais saber o que é existir.

3 comentários:

  1. adoro seus textos... posto todos no meu face.

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  2. Muito obrigado!

    Suas palavras em muito alegraram meu dia hoje. É por pessoas como você que continuo escrevendo.

    Abraços!

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  3. Parabéns!!!
    Belo texto.

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