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sábado, 19 de março de 2011

De quantas mentiras é feita a vida?

Para alguns a vida nasceu a partir de um divino ato do Criador, para outros veio com asteróides trazendo os elementos básicos para seu início. A vida pode ser vivida várias vezes em corpos diferentes ou apenas uma vez em apenas um corpo, também pode ser a mais maravilhosa experiência ou a mais aterradora. Nossas próprias vidas podem ter começado num momento sublime, num momento carnal, dentro de um carro, em um quarto de motel, na casa de nossos pais, pode ter sido premeditada ou pode ter sido ao acaso. Assim é que a vida se inicia, a mais duradoura e difícil de todas as aventuras humanas.

Assim que começamos nossas vidas nesse planeta imenso, somos cercados de informação e idéias que por vezes se confundem com as nossas próprias, por vezes é até mesmo difícil saber se o que pensamos é de fato um pensamento nosso ou algo que foi sutilmente colocado ali seja lá por quem fosse. Se realmente somos aquilo que acreditamos ser ou se somos apenas uma cópia de todas as pessoas que cruzaram nossas vidas.
Então começamos a ouvir histórias que achamos lindas para depois termos a decepção de descobrir que elas nunca passaram de mentiras. Nos natais escrevemos cartas ou fazemos pedidos para um senhor barbudo que mora no Pólo Norte com a esperança de que ele nos traga presentes. Com essa tão linda história nasce a nossa primeira frustração ao acordarmos e percebermos que na árvore de natal a bicicleta não há, nem os vídeo games e as bonecas, parece que o bom velhinho esqueceu-se de nós e pela primeira vez nos sentimos rejeitados e esquecidos. Continua assim, natal após natal uma decepção após a outra até o dia em que descobrimos que o bom velhinho não mora no Pólo Norte, mas sim no Shopping mais próximo. Também descobrimos que ele pode até ouvir nossos pedidos, mas que na verdade quem os deve ouvir são os nossos pais, pois eles sim são os verdadeiros papais noéis. Nessa mentirinha cruel ser um bom menino ou boa menina é apenas metade da equação já que só podemos pedir aquilo que nossos pais podem nos dar. E para as crianças que não tem pai ou que tem famílias sem condições, Papai Noel é nada mais que mais um membro desse mundo cruel que sequer os olha e desde pequenos aprendem que não são parte da sociedade. Com essa lição também aprendemos ainda bem jovens que na vida muitas vezes merecer não significa que obteremos o que queremos, também aprendemos que é bonito e possível sonhar, porém é bom sonhar somente com aquilo que é tangível, caso contrário poderemos nos frustrar quando acordarmos de manhã e não vermos nossos sonhos realizados sob nossas árvores de natal. Papai Noel deixa de ser o bondoso velhinho do Pólo Norte e torna-se apenas uma forma leviana do mundo ganhar cada vez mais e mais dinheiro e o conto de natal passa a ser a verdadeira imagem de que para o mundo crianças e adultos são iguais quando o que vale de verdade é quantos zeros à direta existem na conta bancária daqueles que ganham com tudo isso. A primeira mentira se revela, mentira cruel e desonesta, mas necessária para fazermos bom uso dos nossos décimos terceiros. Ah..quase esqueci, no natal celebramos o nascimento de Jesus, mas Jesus não dá dinheiro e também nunca ouvi falar de um aniversário que se comemora numa data em que qualquer pessoa do mundo pode ter nascido, menos o próprio aniversariante. E como na vida desgraça pouca é bobagem, as mentiras podem até ter pernas curtas, mas por isso andam em bando! Então descobrimos também que coelho não bota ovo, que não nascemos de uma sementinha que papai colocou na barriguinha da mamãe nem que fomos trazidos por uma cegonha; descobrimos que o bichinho da televisão é só uma fantasia com uma pessoa dentro e que muitos de nós não somos tão bonitos quanto nossas mães nos disseram.

O tempo passa, a infância de ouro cada vez mais curta deixa seu lugar para a tão turbulenta e complicada adolescência e com ela vem mais uma cachoeira de mentiras, como se as que já tivemos na infância não tivessem sido suficientes. Apaixonamo-nos pela menininha ou menininho da escola e à esse alguém entregamos nossos corações. É verdade que muitos de nós crescemos em lares em que nossos pais já haviam há muito se separado, mas o mágico e maravilhoso sentimento do amor existe em nós, pois somos a geração que viu Branca de Neve ser acordada por um príncipe e com ele viver feliz para sempre, somos a geração que viu Shrek salvar a princesa e com ela formar uma família, somos a geração que viu casais enfrentarem tudo e terminarem juntos no último capítulo da Malhação, então é claro que nós saberemos bem melhor cultivar um amor, muito melhor do que nossos pais souberam. Compramos rosas com o dinheiro da mesada, damos uma carona para nossa amada em nossas bicicletas mágicas ao passo em que elas contam para suas amigas como estão apaixonadas. Começam então a surgir os subnicks no MSN e depoimentos no Orkut, as provas mais firmes e atuais de que um amor é verdadeiro e eterno. O único problema disso tudo é que a televisão que nos educou não estava lá para educar a vida e ela não sabe que o amor dura para sempre e exatamente neste momento, no momento em que cavalgamos no campo mais belo nosso cavalo tropeça e nos faz cair dele. Como num capricho da tristeza sobre a felicidade o relacionamento chega ao fim e com ele vêm as facas que laceram nossos corações e abrem feridas que jamais serão cicatrizadas, diferente da televisão nossa história não teve um final feliz, teve apenas um final. Faltou espaço, faltou tempo, faltaram caracteres sobrando para uma última palavra no nosso Twitter celestial e por isso a palavra “final” não pode ser acompanhada de “feliz”. É a mão mágica da vida que nos deu o mesmo fim que deu a nossos pais, porque precisamos nos lembrar daquela lição que aprendemos ainda bem jovens, que ser merecedor é apenas metade da equação e que quando somos adultos ser merecedor na verdade não quer dizer nada. Descobrimos que talvez nossos pais não tenham sido tão levianos um com o outro, apenas talvez não exista esse amor tão sublime que somos feitos acreditar. E assim, de forma cruel e impiedosa descobrimos que a eternidade do amor talvez não passe de uma simples fala escrita por algum poeta ou de uma mera formalidade no ato do casamento. Talvez “amor” e “eterno” jamais deveriam ter sido colocados na mesma frase e assim mais uma mentira, ou devo chamar de imprecisa verdade vem à tona.
Mas talvez a vida seja mesma feita disso, de muitas verdades e muitas mentiras, mentiras essas que estão aqui para que nós possamos acreditar no inacreditável e de certa forma termos alguma esperança no futuro, uma forma de nos fazer parar de olhar para aquilo que nos fere e limita e olharmos para um horizonte tão intangível quanto aquele que vemos no mar. Talvez ainda, não deixem de ser como nosso grande amigo Papai Noel, uma grande mentira com o único objetivo de nos deixar cada vez mais pobres.

Eu, que tenho apenas 26 anos e quero ainda por muito viver me pergunto quantas mentiras ainda irei descobrir até o fim da minha vida e quantas lágrimas ainda vou chorar. Aos 26 anos eu me pergunto: de quantas mentiras é feita a vida?

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